No automobilismo, existe uma espécie de silêncio que antecede a largada.
Os motores ainda não gritam, os pneus ainda não cantam contra o asfalto, mas tudo já está em movimento. A ansiedade, a adrenalina, a expectativa. O coração larga antes da bandeirada.
E é exatamente assim que muitas meninas aprendem a amar o esporte: primeiro no silêncio.
Observando da arquibancada.
Do sofá de casa.
Pela televisão.
Pelas redes sociais.
Ou pelos pequenos espaços onde ainda tentam entender se realmente pertencem àquele ambiente.
Gabi nunca pareceu se perguntar isso.
Aos 16 anos, a piloto do Brasília Karting Series já carrega na fala a firmeza de quem aprendeu cedo que, dentro da pista, pertencimento não se pede — se conquista curva após curva.
Pilotando desde os 14 anos, ela ainda escolhe as palavras com a mesma sinceridade com que escolhe uma ultrapassagem: no instinto. Sem frases ensaiadas. Sem discursos prontos.
“Pra mim, competir no automobilismo tem um pouco de pressão, ainda mais sendo praticamente a única mulher correndo”, conta.
Mas o que mais chama atenção não é a forma como Gabi fala sobre o peso de ser mulher no esporte.
É a forma como ela fala sobre correr.
Porque, antes de qualquer debate, existe um detalhe importante: ela ama aquilo.
“Pra mim sempre foi um sonho estar competindo.”
E talvez seja justamente aí que muitas pessoas ainda se confundem.
Existe um hábito antigo — e cansado — de tratar mulheres no automobilismo como símbolos antes de tratá-las como pilotos. Como se fosse necessário existir um motivo extraordinário para que uma menina queira simplesmente acelerar.
Mas, para Gabi, nunca pareceu existir mistério.
Ela não entrou na pista para chamar atenção.
Entrou porque queria correr.
Ainda assim, isso não impede que sua presença seja questionada.
“Muitos não aceitam perder pra uma mulher”, diz. “Então quando veem que eu estou na frente ou tentando passar, ficam tentando jogar pra fora da pista.”
A fala chega sem maquiagem. Sem tentativa de transformar a experiência em frase de efeito. É exatamente por isso que ela é tão forte.
Porque o automobilismo sempre foi apresentado como um espaço de coragem. Mas existe uma coragem muito específica em continuar ocupando um lugar que constantemente tenta testar se você realmente merece estar ali.
E Gabi continua.
Continua alinhando no grid.
Continua disputando posição.
Continua aprendendo.
Continua voltando para a próxima etapa.
“Se tentarem me tirar, eu sei que vou estar pronta”, afirma.
Não soa como ameaça.
Soa como resistência.
Em um esporte historicamente dominado por homens, garotas como Gabi ajudam a construir algo que vai muito além de resultados ou troféus. Elas abrem pequenas frestas de identificação para outras meninas que amam o automobilismo — mesmo aquelas que nunca sentaram em um kart.
Porque nem toda paixão pelo esporte nasce na pilotagem. Algumas nascem na fotografia. Outras no jornalismo, na engenharia, na estratégia, na comunicação, nos boxes, nos rádios, nas arquibancadas ou atrás de uma câmera tentando acompanhar carros rápidos demais para mãos ansiosas.
Ver uma menina de 16 anos ocupando aquele espaço com coragem talvez faça outra menina entender que também pode ocupar o dela.
E talvez esse seja o verdadeiro significado de representação no automobilismo.
Não transformar mulheres em exceções inalcançáveis.
Mas lembrar, pouco a pouco, que elas sempre pertenceram à pista.
Matéria por: Ana Clara Nogueira.
