Entre rotina, legado e paixão, pilotos do BKS mostram por que algumas pessoas nunca conseguem deixar as pistas para trás.
Existem pessoas que nunca deixam realmente o automobilismo. Mesmo quando a vida tenta colocá-las longe das pistas.
O kart já estava parado.
Capacete no banco. Luvas deixadas ao chão. O cheiro de borracha ainda preso no ar quente de Brasília depois de mais um treino comum de semana.
Mas existe algo curioso sobre pilotos experientes: eles raramente falam do automobilismo como quem descreve um hobby.
Falam como quem descreve uma parte do próprio corpo.
Talvez por isso seja tão difícil parar.
“Quase toda semana eu penso em parar. Mas, toda vez que entro no meu kart, mudo de ideia.”
A frase de Thiago Ferrari não soa como exagero. Soa como confissão.
Aos 35 anos, o piloto divide a vida entre responsabilidades, rotina adulta e o automobilismo. E, como acontece com muitos pilotos do Brasília Karting Series, a corrida já deixou de ser apenas competição há muito tempo.
Virou permanência.
O silêncio que existe dentro de um kart
A maioria das pessoas imagina o automobilismo como barulho.
Motores. Vibração. Rádio. Pneus gritando no asfalto.
Mas Thiago descreve justamente o contrário.
“Representa um momento único, em que consigo silenciar as vozes da minha cabeça. Fica só eu, minha concentração e meu foco.”
Existe algo quase contraditório nisso: a velocidade como silêncio.
Enquanto o mundo acelera do lado de fora, dentro do kart tudo finalmente desacelera. Existe apenas o traçado, a respiração abafada pelo capacete e a necessidade quase infantil de continuar fazendo aquilo só porque ainda faz sentido.
Thiago conhece essa sensação desde cedo.
A primeira vez que entrou em um kart tinha apenas sete anos de idade. Cresceu cercado pelo automobilismo. Seu avô, Waltinho Ferrari, foi o primeiro patrocinador de Nelson Piquet. A tradição familiar sempre esteve ali.
Mas paixão e privilégio raramente são exatamente a mesma coisa.
“Eu sempre fui apaixonado. A tradição familiar só me levou até lá. Mas eles não pagavam pra eu correr, eu sempre andava nos karts emprestados.”
Por muito tempo, correr era um desejo incompatível com a realidade.
Então ele transformou aquilo em meta.
“Eu sempre tive essa vontade de ter meu dinheiro e proporcionar isso a mim. Esse era meu objetivo.”
Hoje, depois de anos longe das pistas, voltou a competir oficialmente há cerca de dois anos.
E talvez seja justamente por isso que cada treino ainda pareça tão importante.
Alguns sobrenomes carregam pressão. Outros carregam memória.
Quando se fala em automobilismo brasileiro, certos nomes chegam antes mesmo da apresentação.
Rodrigo Piquet cresceu cercado por um dos sobrenomes mais conhecidos da história do esporte. Ainda assim, fala sobre isso sem peso no tom de voz.
“Não vejo como um peso, mas como um privilégio.”
Para ele, continuar correndo nunca esteve ligado apenas à herança familiar.
“A jornada. Cada corrida é uma nova história, um novo desafio e uma nova oportunidade de evoluir.”
Talvez seja essa a palavra mais importante: jornada.
Porque pilotos veteranos raramente falam apenas sobre vencer. Eles falam sobre permanecer.
Sobre continuar voltando.
Sobre ainda existir alguma coisa dentro deles que desperta quando o motor liga.
“O que me motiva não é apenas a chegada, mas tudo o que acontece até a bandeirada final.”
Existe maturidade nessa resposta. Não a maturidade de quem perdeu a paixão, mas justamente de quem aprendeu que o automobilismo nunca foi apenas sobre troféus.
Era sobre construção.
Sobre identidade.
Sobre escolher continuar.
“Entrar no carro e competir sempre foi uma escolha minha.”
Algumas paixões não estacionam
Existe uma ideia muito romantizada de que o automobilismo pertence apenas aos jovens prodígios, às futuras promessas e aos pilotos destinados às grandes categorias.
Mas os boxes contam outra história.
Uma história feita de homens que trabalham durante a semana inteira, sustentam famílias, lidam com boletos, cansaço e responsabilidades — e, ainda assim, encontram tempo para voltar às pistas.
Não porque precisam.
Porque não conseguem abandonar.
Talvez seja isso que realmente une pilotos tão diferentes dentro do mesmo paddock: a impossibilidade de deixar para trás algo que já deixou de ser passatempo há muito tempo.
Porque, no fim, algumas pessoas envelhecem.
Outras apenas continuam acelerando.
Enquanto houver pista, o motor continuará roncando.
Reportagem por: Ana Clara Nogueira
