Como uma leitura superficial de dados e escolhas narrativas distorcem o comportamento real do público contemporâneo da Fórmula 1

Uma imagem viral, uma frase provocativa e uma conclusão apressada. Foi assim que a ideia de que a nova geração de fãs da Fórmula 1 “não assiste às corridas” ganhou força nas redes sociais — rápida, simplificada e, acima de tudo, sedutora para quem consome manchetes antes de dados.
Mas quando o olhar desacelera e finalmente encontra os números que deram origem a essa narrativa, o cenário muda; e muda bastante.
O que se revela não é um comportamento superficial ou desinteressado, mas sim um retrato distorcido de um público que, na prática, está mais conectado ao esporte do que nunca — ainda que de formas diferentes das gerações anteriores.
Segundo a pesquisa global de fãs da Fórmula 1 de 2025, realizada em parceria com a Motorsport Network, os dados caminham na direção oposta da narrativa que viralizou.

Longe de abandonar as corridas, o público contemporâneo amplia sua relação com a Fórmula 1 — consumindo, comentando, analisando e vivendo o esporte em múltiplas plataformas. A corrida não deixou de existir; ela apenas deixou de ser o único ponto de contato.
Para entender onde, então, nasce esse descompasso entre dados e discurso, a reportagem ouviu Laura Perandim (@formulalau, no X), criadora de conteúdo e uma das vozes mais atentas às dinâmicas da comunidade de fãs da F1.
Para ela, o problema não está no comportamento do público — mas na forma como ele é interpretado e apresentado.
“Há, sim, uma construção de narrativa que desconsidera o fato de que, em momento algum, é dito na matéria que o fã atual de Fórmula 1 prefere acompanhar o esporte pelas redes sociais ao invés de assistir às corridas — e muito menos associa esse comportamento a mulheres.”
A leitura de Laura aponta para um ponto sensível: a diferença entre o que os dados dizem e o que se escolhe destacar a partir deles.
Ao aprofundar a análise, ela também chama atenção para elementos que vão além do texto — e que, muitas vezes, passam despercebidos, mas não são neutros.
“A manchete e a escolha da foto são tendenciosas, são clickbaits construídos em cima de um estudo feito pela própria F1, em 2025, para entender o público da categoria. E sim, existe um recorte de gênero que desvaloriza as mulheres que acompanham o esporte — como sempre houve.”
Em um momento em que a Fórmula 1 busca expandir seu alcance e dialogar com novos públicos, sobretudo jovens e mulheres, reduzir esse crescimento a uma suposta superficialidade não apenas simplifica a discussão, como também desvia o foco do que realmente importa: entender como esse novo fã se relaciona com o esporte.
E talvez esse seja o ponto central.
Não se trata de uma geração que assiste menos, mas de uma geração que assiste de forma mais fragmentada, mais contínua e, paradoxalmente, mais presente. Uma geração que não espera apenas o domingo — ela acompanha o antes, o durante e o depois.
Ao final da conversa, ao ser questionada sobre o que, de fato, define um fã de Fórmula 1 hoje, Laura responde com uma perspectiva que desloca o debate para além dos números:
“Falando de um ponto de vista brasileiro e sul-americano, o que define o verdadeiro fã é a nossa sede por contato — e o orgulho de ver o nosso povo em um esporte que, historicamente, não foi feito para nos receber.”
Entre dados e narrativas, fica evidente que o desafio não está em medir o interesse do público, mas em interpretá-lo com responsabilidade.
A nova geração de fãs da Fórmula 1 não assiste menos — ela assiste diferente.
E talvez o verdadeiro exercício, daqui para frente, não seja enquadrar esse comportamento em padrões antigos, mas aceitar que o esporte, assim como seu público, também está em movimento.
Reportagem por: Ana Clara Nogueira.
